sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

COMO SOMOS PATÉTICOS!

A trajetória da Associação Chapecoense de Futebol foi reportada por alguns jornais estrangeiros como o “Conto de Cinderela”. O clube do interior catarinense conquistou o acesso à divisão de elite do futebol brasileiro, egresso das séries B, C e D, em pouquíssimo tempo. A sua ascensão à série A foi resultado de um planejamento que não se vê em meio ao caos administrativo dos clubes do futebol nacional. Os seus gestores são exemplo de uma administração responsável.

Portanto, os atletas da Chapecoense, desde as categorias de base, usufruem de condições adequadas para o desenvolvimento de suas capacidades e habilidades, de modo que a campanha da Chapecoense, no ano fatídico do acidente aéreo, chamou a atenção dos comentaristas, especialmente por ter chegado à final da Copa Sulamericana, para decidir o seu primeiro título intercontinental. Sob o comando de um jovem e promissor treinador de futebol, a equipe formada por atletas experientes e outros que despontavam no meio esportivo brasileiro, como no Conto de Cinderela, viu o seu sonho se desfazer, quando os ponteiros do relógio da vida real sinalizaram meia-noite.

Só um acontecimento tão dramático, como o acidente aéreo que vitimou a maior parte da delegação da Associação Chapecoense de Futebol, para chacoalhar a nossa idiotice diante da vida. Assim sendo, quando chocados por um desastre, a gente começa - se é que há alguma disposição na gente para discernir os sinais da vida - a pensar que pode estar vivendo a vida sem respeitá-la. A gente pode estar vivendo a vida sem dar o devido valor ao que realmente importa. A gente pode estar vivendo a vida sem se afetar com a vida do outro. A gente pode estar vivendo a vida sem se enxergar. A gente pode estar vivendo a vida com desleixo.

Contudo, quando a gente vê aqueles jovens jogadores tão cheios de vida, nos vídeos que eles próprios fizeram ainda abordo do avião, e depois a trágica notícia de seu desaparecimento, toda a nossa presunção e arrogância são, imediatamente, contestadas. A gente acha que pode tudo, não é? A gente acha que tem razão em tudo, não é? A gente acha que sabe tudo, não é? A gente acha que entende de tudo, não é? A gente acha que é mais do que realmente é, não é? Como somos patéticos! A patetice da gente explode diante das nossas caras, quando um acontecimento sobre o qual não se tem qualquer controle esmaga a nossa arrogância e presunção diante da existência. Vocês já pararam para pensar que podem estar empurrando a vida com a barriga? É verdade! Ainda que digam que têm um monte de planos e sonhos, a vida que vivem pode ser um bocado de coisas que não tem o menor significado ou o menor sentido, e só são uma cumulação de coisas despropositadas que não vão resultar em nada nas suas existências?

Jesus falou sobre isto. Ele disse, “O povo vivia comendo, bebendo, casando-se e sendo dado em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. Então veio o dilúvio e os destruiu a todos” (Lc. 17:27). Ademais, Jesus lembrou também dos dias de Ló e acrescentou, “Aconteceu a mesma coisa nos dias de Ló. O povo estava comendo e bebendo, comprando e vendendo, plantando e construindo. Mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu e os destruiu a todos (Lc. 17:28, 29). Porém, ninguém se deu conta de que vivia empurrando a vida com a barriga, porque a vida se resumia a comer, beber, casar-se e dar-se em casamento, comprar, vender, plantar e construir, como se essas coisas fossem tudo sobre a vida e a vida se resumisse a essas coisas. E aí o que a gente menos espera acontece. O dilúvio vem! A cidade é destruída! O avião cai! Coisas sobre as quais ninguém tem controle, ainda que ache que tudo está sob controle em suas vidas ridículas, vêm como enxurrada e varrem para longe sonhos, esperanças, projetos, anseios, desejos. E a vida se vai como se não se a gente não a tivesse vivido. A vida é assim! Ela prega peças na gente. Ela arma emboscadas para a gente. Ela conta piadas de mal gosto. O que mais a gente teme é o que ocorre, às vezes, na vida da gente. A gente se ilude.

A propósito, a gente vive numa sociedade onde se criou a necessidade opressora de ser feliz. É a ditadura da felicidade! A pretensão de se estar feliz sempre ou de se buscar o lado feliz, como se houvesse um lado feliz em tudo o que acontece com a gente, é besteira. Quem vive a vida com os olhos abertos sabe que a tristeza faz parte da vida. Não dá para fazer dos limões uma limonada sempre. Aqui e acolá há um limão podre que deixa um gosto ruim. Portanto, quem vive a vida de verdade sabe que, assim como a alegria precisa ser curtida, a tristeza também. Querer ser feliz o tempo todo é babaquice, quando não uma doença da mente. Se a gente fica alegre, que a gente curta essa alegria em Cristo. Se a gente fica triste, que a gente curta essa tristeza em Cristo. Ninguém vai ficar alegre o tempo todo. Ninguém vai ficar triste o tempo todo. Cristo tem de ser maior que a nossa alegria e a nossa tristeza.

A vida da gente é feita, natural e normalmente, de alegrias e tristezas. Ninguém vai ter tudo o quer na vida para poder ser feliz e, se não tiver tudo o quer, não vai poder ser feliz. Até mesmo os familiares dos que se foram, após o fatídico acidente na Colômbia, refarão as suas vidas, ainda experimentarão alegrias e outras tristezas, e carregarão a lembrança dolorida de seus amados. Enquanto isso, muitos de nós ainda estaremos nos debatendo com as nossas picuinhas existenciais, tentando decidir se seremos felizes ou tristes, porque não conseguimos o que desejamos e nem aconteceu conosco o que achávamos que deveria acontecer.

Todavia, Jesus pede que os seus discípulos aprendam a lição da figueira. Que leitura da vida a gente está fazendo? A lição da figueira nos ensina que, quando os seus ramos se renovam e as suas folhas começam a brotar, é sinal de que o verão está chegando. No entanto, a gente é displicente. A gente é lerdo para aprender. A gente é samonga para entender. O que Jesus quer ensinar com a lição da figueira? Você e eu temos discernido os sinais? Não se trata de nada exotérico ou carismático. Não há nada de mediúnico nisso! É que a vida sinaliza para a gente oportunidades, momentos, conjunturas, situações, instantes. Em outras palavras, a gente precisa entender que a vida não é só o aqui e agora, mas, também, o que a gente semeia para colher, as chances que a gente aproveita ou desperdiça, as oportunidades que nos chegam às mãos, a conjuntura de fatos que concorrem para uma boa ou má decisão, o instante que requer da gente sabedoria e prudência para tomar uma decisão. A vida é muito maior do que as nossas necessidades imediatas, os nossos sonhos de consumo, as nossas expectativas irrealizáveis, os nossos desejos insaciáveis, os nossos descontentamentos infantis, as nossas amarguras por injustiças sofridas, os nossos amores impossíveis e tudo mais que jamais poderemos conseguir ou realizar, porque a gente não vai encontrar o significado mais profundo da vida nessas coisas.

A gente precisa aprender a lição da figueira, porque os ramos que se renovam e as folhas que começam a brotar podem estar sinalizando para a gente que uma nova estação de nossas vidas está próxima e precisa começar. É tempo de perceber que as coisas não podem continuar como estão. É tempo de perceber que as coisas precisam mudar. É tempo de perceber que deixar que as coisas continuem do mesmo jeito é perder tempo. É tempo de perceber que o tempo de mudar chegou e vai passar. É tempo de perceber que, se o tempo de mudar passar, as coisas que precisam mudar não vão continuar do mesmo jeito, mas vão, na verdade, piorar. É tempo de perceber que é tempo de uma nova estação nas nossas vidas, que pode ser uma nova e mais precisa percepção de uma manifestação extraordinária da graça no relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o outro, na realização da vida sentimental, nos projetos de trabalho e de estudo, na concretização de sonhos e esperanças, a qual nos traga a maturidade para viver cada momento da vida com o necessário contentamento e gratidão, sem dela esperar mais do que ela pode nos oferecer.

A gente precisa aprender a lição da figueira, porque há tempo de esperança, para além da história, que não se limita a esta vida apenas, pois, como diz Paulo, se a esperança da gente se circunstanciasse a comer, beber, casar-se e dar-se em casamento, comprar, vender, plantar e construir - e outras coisas mais que a gente faz todos os dias até o ano acabar e começar um novo ano para a gente fazer as mesmas coisas todas de novo - a gente seria mais infeliz do que o mais infeliz de todos os seres humanos, porque a fé da gente seria inútil por ter crido numa esperança mentirosa (I Co. 15:14). Ao contrário, a esperança da gente está firmada na palavra de Jesus e Jesus é a palavra. Ora, a esperança da gente não está arrimada nos céus ou na terra, porque os céus e a terra passarão. Ela não espera em coisas fugazes, efêmeras, transitórias, findáveis, como tudo o que há neste mundo e neste mundo perece. Pelo contrário, a esperança da gente não será frustrada, porque está apoiada nas palavras de Jesus que, como Ele é, nunca deixarão de ser. A esperança da gente, a maior de todas as esperanças, é a esperança da volta pessoal e imediata de Jesus Cristo que impulsiona a gente a buscar viver a vida com significado, porque a gente a vive desde já na perspectiva do Reino de Deus.

Portanto, a proximidade de sua chegada é a grande lição da figueira, porque a gente deve viver a vida como se Jesus estivesse às portas, porque Ele sempre esteve às portas e está às portas para todas as gerações daqueles que n’Ele esperam e nunca perderam a esperança de manter a esperança de que Ele voltará. E Jesus tem voltado para muitos! Essa esperança na gente tem de ser maior do que qualquer outra esperança na vida da gente, porque nenhuma esperança, além da esperança da vinda do Reino de Deus, pode, realmente, livrar a gente de viver uma vida pateticamente vivida em busca de sentido num mundo sem o menor sentido.


Vou terminar com um trecho de um e-mail que escrevi a um amigo-irmão, no dia 26/03/2010, quando vivia os dias tenebrosos da minha depressão: “É, de fato, a felicidade é um sentimento simples, que não precisa de muitos adereços e penduricalhos associados tais como: família, bens, prazer, fama. Às vezes, nós confundimos felicidade com tais coisas. Contudo, nesta vida, que não é absoluta - nada é absoluto - nem mesmo a felicidade, permita-me falar de bem-aventurança. Bem-aventurança é um estado ou condição d'alma que está para além do sentimento puro e simples de felicidade. Sim, a bem-aventurança encapsula a felicidade da paz com Deus, por isso significa mais que só felicidade. Bem-aventurança contém o mistério de ser feliz na infelicidade, de ter paz na falta de paz, porque um estado d’alma em fé. Bem-aventurança, para mim, é sentir-me paradoxal e estranhamente feliz na minha infelicidade, que também não é - graças aos céus - absoluta. Não são a felicidade ou a infelicidade, absolutas, porque elas vão e voltam, aparecem e desaparecem, nos encontram e nos desencontram nesta vida relativa. Porém, não é assim com a BEM-AVENTURANÇA. Ela é incondicional: independe do meu estado de espírito, do meu humor, da minha condição financeira, da presença ou da ausência dos que amo. Sem esta BEM-AVENTURANÇA, eu particularmente, pois o amigo-irmão sabe do momento infeliz que vivo, já haveria dado cabo da minha vida como tentei, mas a BEM-AVENTURANÇA não me permitiu. Amém.

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